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Mulheres e a Luta pela Igualdade

por Andrea Alves
MULHERES E A LUTA PELA IGUALDADE

No mês da mulher contamos histórias inspiradoras de profissionais, mães e guerreiras, que vêm conquistando os seus espaços com garra e competência, vencendo os preconceitos, cada uma à sua maneira

Juliana S. Voelcker

Instrutora de voo no Aeroclube de Montenegro (RS)

Juliana se apaixonou pelos aviões ainda criança, quando o padrasto, piloto, a levava na cabine. “Ali começou o encanto pela aviação. Aos 18 anos comecei os cursos e desde então tenho certeza de que estou na profissão certa.”

Profissão essa que, além de (ainda) ser predominantemente masculina, necessita de muita dedicação, tempo e dinheiro para formação. “É uma profissão técnica, que exige domínio teórico e prático da aeronave e de tudo o que o voo envolve.”

Juliana, que dá instrução de voo desde 2020, conta que muitas meninas têm reações positivas ao descobrirem que ela é piloto e concorda que pode ser uma inspiração para todas elas. “Li que a porcentagem das mulheres na aviação é de apenas 3%, mas estamos aumentando esse número. Já vejo mais mulheres fazendo os cursos do que na época que comecei.”

Ela conta que já sentiu preconceito e machismo, mas não se intimidou. “As reações são variadas. Muitos homens lidam comigo com muito respeito e admiração, mas outros reagem de forma negativa e desrespeitosa. Uma vez perguntaram se eu gostaria de pintar o avião de rosa. Mas levo na brincadeira, acredito que comprar briga verbalmente não adianta. Prefiro seguir com os voos e mostrar que tenho tanta capacidade quanto quem faz essas piadas.”

Juliana Coelho Dias

Motorista de aplicativo (SP)

Juliana Coelho Dias, advogada de formação, é motorista de aplicativo desde que saiu de Itapetinga (BA) e se mudou para São Paulo no início de 2020. Mãe de uma menina de 13 anos, ela procurou emprego na sua área, sem sucesso. “Acredito que a minha idade (43 anos) tenha pesado nos processos seletivos. Aí veio a ideia de trabalhar como motorista de aplicativo, em que para começar eu só dependeria do meu próprio esforço. Adoro dirigir e o trabalho me dá liberdade de escolha de horários, possibilitando também ser mãe e cuidar da casa. Não é fácil. Ainda mais quando se é mãe solo, como é o meu caso. Cuidar dos filhos, da casa, conciliar horários e ganhar dinheiro. Levo e pego a minha filha na escola, faço almoço, deixo a casa organizada, trabalho, volto a tempo de jantar, estudo e, quando dou conta, faço exercício.”

Ela conta que, como advogada, sentia a discriminação no trabalho. “Especialmente por ser mãe e ter outras obrigações que não somente o escritório.” Já como motorista o que sentiu foi a curiosidade das pessoas quando se deparam com a condutora mulher.

Assédio também é comum, segundo Juliana. “Tomo muito cuidado com a conversa, a postura. Tudo para evitar qualquer tipo de interpretação errônea.”

Katiany Sampaio

Enfermeira off-shore (RJ)

Não há monotonia na rotina de Katiany. Enfermeira em uma plataforma petrolífera, onde fica confinada em alto mar durante 14 dias no mês, ela decidiu pela profissão por ‘gostar de trabalhar com pessoas querendo ajudá-las’. “Passamos boa parte de nossas horas dedicadas ao trabalho, então nossa escolha tem que fazer sentido. Na faculdade me aproximei da saúde pública, iniciei em terra em 2008 e em 2016 veio o convite para trabalhar off shore e não tive dúvidas.”

Para ela o trabalho é desafiador, já que não é fácil viver 14 dias longe da família, do lazer, da casa, trabalhando 12 horas por dia ou mais. Mas é um trabalho diferenciado, estimulante e provocador. “Precisamos de mulheres ocupando todos os espaços, inclusive o do trabalho off shore. Venham!”

Katiany é a única profissional de saúde da plataforma e cuida de 130 a 160 pessoas a bordo, na parte preventiva e curativa. Com a chegada da pandemia a situação se complicou, apesar dos rígidos padrões de segurança da empresa para com os profissionais, que ficam em observação no hotel por 14 dias antes de embarcar, somente depois de testados. “Dá trabalho, é cansativo, mas tem um objetivo maior. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e de fazer o que faz!”

Ana Paula Braga e Marina Ruzzi (SP)

Advogadas especializadas em desigualdade de gêneros

Ana Paula e Marina se conheceram na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e descobriram na profissão um instrumento de transformação social. Desde então, trabalham em prol dos direitos das mulheres. “Descobrimos uma carência no mercado privado para atuar nos direitos das mulheres. Não havia nenhum escritório que concentrasse as demandas femininas de maneira global, sem segmentá-las em diferentes áreas.” As advogadas então fundaram a Braga & Ruzzi Sociedade de Advogadas.

Elas contam que sentem, sim, a desigualdade no mundo jurídico. “Ainda temos menos mulheres ocupando cargos de liderança no direito, apesar de haver hoje, no Brasil, mais mulheres se formando e o mesmo número de mulheres que homens nos quadros da OAB.”

A desigualdade salarial também é uma realidade. “Ela tende a ser maior em profissões tidas como ‘masculinas’, como atletas (jogadores de futebol, por exemplo), e nos setores de engenharia, tecnologia, economia, etc. Mulheres ainda são vistas como menos competentes, ou como funcionárias ‘problema’ em razão da maternidade. Para acabar com a desigualdade de direitos precisamos acabar com a desigualdade de gênero. E isso passa por uma transformação social profunda, com a eliminação de papéis estereotipados e mais informação sobre o tema na mídia.”

Mas as advogadas contam que houve avanços legislativos nos últimos anos. Desde a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a reforma dos crimes sexuais. “Mas ainda precisamos mudar a mentalidade de muitos operadores do direito. Não adianta leis de proteção se as pessoas encarregadas de aplicá-las ainda reforçarem preconceitos. Estamos mudando aos poucos, mas ainda há muito para avançar.”

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